domingo, 26 de abril de 2015

Numa Lanchonete em 2012

Penso no homem que inventou a meia-noite.
A escarpa extática de seu nariz ao inclinar-se.
O ato de inclinar-se.
Catalogar, representar no espírito, os salgados expostos na estufa,
a luz branca que os mantinha, como que à força, em seu lugar.
Das duas entradas de uma galeria em “U” efluía então
certa ideia de movimento humano, persistência muda,
síntese,
não era difusa?
Emblema do que viemos a entender como natural
(“o mundo natural”, “a ordem natural das coisas”).
Estas pessoas que saem, que entraram, sabe-se lá por onde,
ninguém dá por nós,
este comércio estreito na luz branca,
esta galeria,
a luz atravancada de galerias, estufas, refrigeradores,
eu repito: natural.
Eu repito: as coisas representam-se no mundo.
É da ordem natural das coisas não revermos aquelas pessoas.
Não as vimos.
Nenhuma delas, por sua vez, reparou em nós.
Nenhuma delas nos interpreta, nem mesmo agora,
como o sítio de uma grande devastação futura,
que é precisamente o que somos:
a cerca desigual,
o corrimão,
arames
embrulhando a fronteira.
O que me comunica novamente este momento?
O que me comunica então esta rua, esta vizinhança, esta cidade, não estou sempre a nascer?
Procurando exasperadamente acomodar
o ar, a luz,
a ruminação nestas bocas?
A fome? a banalidade dos saciados?
Também naquele momento,
condenado, como todos os outros, a vir abaixo,
havia já qualquer coisa que vinha abaixo,
um punhado de pedriscos
despencando no mar,
a luz branca a escapar dos freezers,
das estufas, das vitrines.
A luz branca já voltava à carga.
Nós levantamos. Nós pagamos a conta.


terça-feira, 21 de abril de 2015

"Divertimento", "Desastre (Outro Postal)"


Divertimento

Suponha então que seja este o meu último poema
(imagine, na carniça da idade) olho
para o seu rosto, não sei se se refere ao infinito,
que é isto quando
os olhos descrevem uma argola e depois outra,
quando manobra – mas por quê? – os óculos
na vertical,
não sei,
ignoro o número oito.
Suponha agora que sejam estas as minhas últimas palavras.
Não “Josefina” –, “mais luz!” –,
“já faz muito tempo que não bebo champanhe”, mas
estas:
“Ignoro o número oito”.

(Neste exato momento um piano caminha lentamente para a Terra).

*

Desastre (Outro Postal)

Este o seu rosto comprido quando o outono entrava
colhia-se um cheiro a peixe
este o seu rosto a oscilar com os números oficiais
toneladas de peixes carregados em caminhões de noite
                                                       aos outeiros da periferia

este o seu rosto estampando-se asfáltica água
montanhas trançadas
aquilo que não ejaculava, transparente?

domingo, 5 de abril de 2015

Idéia da Morte na Cinelândia (Primeira Versão)



Ó morrer como Jó, velho e “farto de dias”, todas as úlceras canceladas, duplicados os não sei quantos jumentos –,

pensa miudinho ao chegar à Cinelândia, o espaço batendo-lhe em cheio, devolvendo-lhe

umas ideias que não tivera tempo de aprofundar à hora do almoço,

é o que acontece a qualquer um que vem dar porventura à Cinelândia, seja por que lado for, é o espaço,

(o que acontece)

(o espaço para a morte dependurada)

esta irrupção – sempre imprevista – que vem testar o perímetro do fôlego,

que nos arranca em definitivo às celas bolorentas onde silenciosa e cotidianamente vamos perdendo a razão,

que é o último arranque,

(testar o perímetro do fôlego)

O que acontece a qualquer um que vem dar porventura à Cinelândia, jorro de espaço para aprofundar umas ideias de “boa morte”,

muito espaço, muita ocasião

para quem vinha já esboçando de ocupar-se do assunto desde a hora do almoço

e não pudera prosseguir,

esperavam-no

em seus próprios dissensos, suas próprias miúdas predileções, era tudo um bocado miúdo e um bocado cômico, era chamado já e sem demora para uma certa maneira plenamente identificável de fazer girar a cadeira sobre o vácuo carpete da sala, altear o peito, exprimir-se acerca de qualquer banalidade –,

em muito pouco tempo nos erguemos, pouco mais de um mês e já está lá do outro lado um reflexo, (um reflexo não se mata a pauladas),

não uma inquietação acerca da “boa morte”, a morte com que é recompensado Jó após longa provação, afinal

há gente que não mexe nessas coisas e passa muito bem

e eu entre elas e em nós, em meio a nós passam fieiras de pesadíssimas fardas

mas antes saber o que é “provação”, esboçar uma ideia de “provação”, não deixá-la dependurada assim, sobre a mesa do refeitório

trabalhou duro o dia inteiro para merecer enfim a gravidade destas palavras:

reconquistar a morte de Deus

morrer

morrer sob essa morte

livres

ao ter a visão da Cinelândia, livrar-se dela para depois adentrá-la,

eu entre elas e em meio a nós as fardas pisam as cruzes

pisam esta aberta hoje atada de luzes policialescas, e como, como reconquistaremos a morte de Deus?



(Páscoa, 2015)

sábado, 28 de março de 2015

"Pequena Galeria", "Postal"

Pequena Galeria

Os rapazes daqui
o muito que emudecem
de seus “senhores”

estão pelas esquinas chupando
smoothies de carvão
nos olhos um fosco sem dor

(cinza venoso)

pernas espapaçadas
sobre os frades da calçada
dedos de papel-carbono e

o asfalto a trepar-lhes pelos jeans
sapatos sujos compondo
nas caras uma fixidez diabólica

Postal

Cores trompeteando
montanhas pegas
num gesto
de atirar qualquer coisa de volta ao mar
(doze picos, doze apóstolos)
indefensibilidade de um céu
rosa ritz

Diante das rochas, as ondas
mantêm as colunas eretas
como alunos bem-comportados


sábado, 27 de dezembro de 2014

"World Music"


Sou tão interessante quanto qualquer outro sujeito do meu tempo
Um pouco mais, talvez, porque raramente prestava atenção
Nos pequenos cinemas do centro da cidade
Empalideci, por anos
As costas supliciadas, clarão cambaleando, concluía
Errado –, o sol lá fora
Tira um avermelhado de folhas verdes, sabemos e percebemos
Qualquer coisa que as luzes logo vêm
Desmentir –, pôr sob luz diversa
Enfim, particularidades que ignoro
(No centro de particularidades que ignoro)
Porém, se a certos fenômenos tornei-me de fato insuscetível
Outros parecem interessar-me cada vez mais
Cruzo os braços no rebordo, é terrivelmente pitoresco
Achar-se assim num parque gramado
Fazendo planos, procurando uma estação de world music  

sábado, 20 de dezembro de 2014

Dois Poemas em Dezembro

"Façamos votos"

"Só um desejo de nitidez ampara o mundo..."
- Mário de Andrade, do poema "Momento (Abril de 1937)"

Então não estamos exaustos.
As bocas limitam com o mundo
seus embrulhos prateados –, “paga

uma miséria e a burocracia
é interminável. Que mais queriam
neste pé do ano?”. Contração da primavera

até dar com os punhos cerrados
sobre a mesa da cozinha. Solstício.
Os jornais.

Então somos homens ao sol,
não somos?, homens no princípio
de certo peso, desejosos de –,

Coisas caminhadas às claras,
tão distantes de adivinhas quanto
estamos de uma pátria

mãe: Ao dar com os punhos cerrados
sobre a mesa da cozinha, desengasta a palavra
“solstício” de uma folha de jornal

***

Para o Murilo

Certos muros da cidadezinha reflorida
colocarão sua juventude como um problema
incontornável –, 
..........................algo que devo ver.
É pena que isto só me ocorra agora,
meses depois, na fila de uma casa lotérica,
a baita metrópole a meio.

Evocação, coisa fortíssima donde

construo os pés. Por desgraça,
nenhum outro poema me estendia agora o isqueiro.
Não há quem compre sapatos novos,
quem jante com o Dirk Bogarde.
O poema, então, é pagar esta multa,
voltar para casa o quanto antes,
ver se a mãe já conseguiu comer alguma coisa

sábado, 13 de dezembro de 2014

Convite




Passeio um Pouco Grave


Caminho caminho só
a contextura de um museu

acontece vez por outra
pisar numa coruja –, e doer –,
e

maravilhar-se
ante tudo que é vivo,

ante o insepulto.

Caminhando caminhando só
a qualidade da própria atenção

de poucas 
palavras para precisar 
a luz sobre um gramado

a luz repastada no mundo
caminho
caminho só, quem sabe

um dia meus braços não
perdem algo
desta estúpida formalidade

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Insignificância


Vá trabalhar, anjo.
Nenhuma paixão é realmente capaz de substituir o álcool
afora, talvez, o dinheiro.
Foi assim que construí meu império.
Probidade.
De repente ficou tão humilde que mal consegue deixar o terraço
quando
a chuva quebra seus primeiros frascos de amônia na calçada,
os anjos infiltrados na mureta
dão um dó, diz
que emborcou dois imóveis no Flamengo em menos de dez anos,
ali perto da praia.
Repete.
Repete para você ver
que não me faltam experiências.
Vê-se logo que é um sujeito incapaz de se sacrificar por coisa alguma.
Vê-se logo, um aventureiro, às vezes
tomar o caminho mais longo, aquele
que passa pelos botecos que assombrávamos à época.
Ponho a cabeça na chuva,
já não reconheço ninguém.
Galgando ladeiras sempre com grande tormento para todos.
Pois bem, onde já se viu um wunderkind de trinta anos de idade?
A última crise de fé espocou nos idos da graduação.
Em dado momento vi-me forçado a abandonar a cidade, tão exausto
andava de parabenizar os meus.
Eu sou o filho ônibus do Kapital.
Às vezes me pergunto como certamente você

você
você
você

e este homem espigado atrás de mim –,
quem vem lá? A visita inesperada de um moinho.
A Perseverança.
Tão fora de esquadro com as dimensões desse sótão.
Um homem bem-nascido pode se dar ao desfrute de ser paciente.
Quanto a mim, sigo em minhas devoções. Acho que nunca encontrarei
uma saída.
O cansaço saiu-lhe aos braços, a voz
saía-lhe uma fazenda branca.
A cara toda pegada de sólidos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Surdinado


“manca ancora il silenzio nella mia vita.”
- Eugenio Montale


Inútil dizer que digo

o que digo e a fala espirala.

Já é tarde motim
afirmar,

colher
um formigamento debaixo
do piso,
encerar o círculo
mágico, ao santo de barro

empurrá-lo um lanço
de escadas,

tão tarde,
tão tarde

motim,

Vir fantasma,
metrônomo,
escapado
de muitas vozes,

mas isto
não é
a diferença
(o que eu procurava)

O que eu
procurava?

O direito de estar
entre as coisas

pleno entendimento
daquilo que me dão
daquilo que me negam

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Nu Sobre Uma Duna


Subiria de volta à duna,
veria nela a respiração que toda a gente vê?
Pisava-a?
Despia os shorts
primeiro
a retórica da nudez
mudava-se enfim
diante dos meus olhos
numa imagem
a imagem de uma duna
encimando-a
um homem nu
é nesta competência que você
ocorre
aos homens esgotados
é neste
movediço que
o engole
a fantasia de outro
é aqui
diante dos meus olhos
você se torna imaginário
você some

domingo, 2 de novembro de 2014

Fantasia Acerca da Dignidade dos Homens, I


Que fazia em meu lugar um homem digno, um homem de princípios elementais?
Esvaziadas já todas as peças, põe-se a folhear a varanda.
Volta-se ao corretor.
“A vista é muito graciosa, decerto, mas com ela não se pode limpar o rabo”.
Eis aí um homem sensato.
Sensato, como se vê, jovial.
(Disse uma verdade, o firmamento não veio abaixo).
Agora partem os dois em busca de coisa mais compreensível.
A mim, deixam-me quieto.
Que mais posso pedir?
Em sonhos, no entanto, alteio-me ao centro da sala.
Eis aí um homem sensato, de voz ancorada, voz que fundeia o navio.
Olhos fitos em cada um deles.
Que faz este leme no canto da sala? O que quer dizer, que querem dizer com isso?
Sou um homem.
Destes homens que dizem coisas como –, “não saio daqui sem respostas”.
Um homem digno, enfim.
Este homem, que fazia este homem para tirar da grande revelação a grande revelação?
É de supor que já se tenha defrontado em algum momento com o problema do teatro.
O problema da representação.
O problema da afirmação decisiva.
Como terá resolvido o problema da afirmação decisiva?
Como parece tranquilo, afinal.
Debruçado à varanda, traz para dentro dos ossos a impossibilidade, embala-o (dentro dos ossos) o reproche maternal do tempo.
Remediado está.
Remediado está.
Não consigo interromper a costura do fantasma.
Mancheias de sangue no interruptor.
Talvez sejam minhas.
Que sei eu?
Ele é digno como os sonhos, mas ele se move.
Ele se move pela estatuária –, grotesca –, não há como contornar –, apalpa umas corujinhas de louça.
Que fazia das medalhas, este homem, das medalhas?
Cortavam-nos os pés.
Cortávamos os pés nas medalhas, voltando da praia.
Os anos já não comportavam tanta boa vontade.
Tanto “sacrifício”.
E no entanto, aquilo continuava.
Que fazia dos anos, fazia que não dava por eles? Que não tinham peso, gravidade?
Fazia como os homens que levam num frasco a bala que por pouco não os matou?
Que fazia a respeito dos quadros, destes quadros com os galos, por exemplo?
São odiosos, não há quem não o reconheça.
No entanto, pelo que sei, jamais moveu-se uma palha para tirá-los do lugar.
Agrada-me a ideia do leilão, é civilizada (civilizada demais para nós, se querem mesmo saber).
Dói-me, no entanto, que os vestidos dela não conheçam o fogo.
Creio tratar-se de um impasse objetivo.
Nada disto dançará selvagemente?
Nada conhecerá a blasfêmia?
Não conhecerão o fogo
.......................... o leme
...........................as corujas
...........................os galos
...........................os malditos galos?
Vamos lá, responda.
Que fazia em meu lugar um homem digno?
Matava-se.
Ou isto ou sumia no mundo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Num Campo Orvalhado


A nudez punha óculos, até a nudez
necessitava

uma cadeira, ainda que nua, a nudez
buscava a este papel

as bordas nuas, uma esferográfica

com tinta suficiente para anotar
algum endereço

às pressas, abria gavetas, abria os usos,
...................................            rodeava-se.

Vi como cada objeto tocado
devolvia-o, cada vez mais grave, a este tempo.

(O grito, o montante, a
substituir
por um único disparo da câmera).

domingo, 26 de outubro de 2014

Sob Uma Marquise, 26 de Outubro de 2014


Já não há tempo de explicar aos pósteros
o que foi uma videolocadora
Certos mares, talvez
laborada exalação de sua tristeza
São certos mares, pálidas montanhas
concorrentemente tristes
E também certas ilhas pegadas ao solo apenas pelos nomes
A esta longa elemental tristeza
Opõe-se esta outra
Tão breve e, em última instância, dizível quanto
hálito
que se raja contra uma vidraça
Sob uma marquise,
ao abrigo de chuva repentina,
É claro, uma situação, madrugada
Noto que às minhas costas há uma videolocadora
E ao ler a placa
Últimas semanas, venda de estoque
Quarenteno uma emoção, admito, um tanto burguesa,
ao reparar no piso axadrezado,
através das grades,
ladrilhos, suponho, ladrilhos
pretos, brancos
Sobre um sábado chuvoso
Exíguo
O lugar é exíguo, subitamente inunda
daquele leve pasmo de pessoas que não sabem ao certo o que fazem de seu dia
apinham-se diante da estante de Lançamentos
lamaceiam pegadas
(sobre pegadas) (sobre pegadas)
sobre o piso axadrezado
Haverá tempo ainda
tempo de falar aos pósteros sobre os funcionários
das videolocadoras
sua beleza sem vigor, seu imperioso tédio,
sua juventude – sempre truncada – sempre truncada, ou não?
Já não há tempo,
afinal,
preteridos pelas montanhas,
tornaram-se tão provisórios quanto sempre nos pareceram
Rápido, rápido acaba-se o tempo das explicações, há estas
montanhas
com e sem tempo
E depois de se extinguirem, a lua
sentada nalgum sítio sobre
a marquise, sob a marquise
junta-se a mim um casal que espera a chuva abrandar
Com efeito, a chuva abranda, passados
dez ou quinze minutos
O casal parte,
Provisório, capa mais branca que
cai, recebe-o em sua queda
a montanha, penso
eu
(Eu estou pensando)
O momento não
é tão oportuno quanto sempre nos deram a entender
Pense novamente
Ninguém nos espera –, RÁPIDO –, ninguém espera
a chuva
que a ultrapasse uma banca de cachorro-quente
um ônibus vazio
risco branco
velocíssimo destino centro cai
às minhas costas
uma videolocadora prestes a encerrar suas atividades
Eu penso alguma coisa afinal
Eu penso
Coloquemos diante da história uma pequena pena de videolocadoras
Coloquemos diante da história também esta pequena pena de videolocadoras
Rápido, não há tempo de explicar aos pósteros
(o que são os invólucros do meu tempo? O que é este objeto negro, cassete na clareira?)
Coloquemos também na história
a vertente de uma montanha
coberta de ladrilhos
pretos e brancos


sábado, 25 de outubro de 2014

Imóvel



uma pequena atenção, pequena cotidiana bravata
pequena cotidiana
investida contra tudo que pende, emporcalhado com os anos
pode vir a infeccionar

a solidez exemplar dos homens
que afastam as moscas

este lugar está limpo, este lugar é meu
a poeira que não se ajunte
sobre uma grande e ordeira paixão

os homens que disto forjam princípios
(de mundo), partem do quarto para a possibilidade,
limpos, vão se arejar

diante de uma grande e ordeira paixão,
dentro de uma grande e ordeira paixão

imóvel

sem a mais cotidiana investida


domingo, 28 de setembro de 2014

O Setembro Seguinte



Precipitação de agulhas no cômodo ao lado.
A custo reúnem-se
o céu,
os bibelôs da cidade do Cairo,
uma gabardina estendida para secar, o cheiro a urina na manta
sobre o parapeito da janela – viver –,
circunvalado pela doença.
Cair, eventualmente,
com a tosse marretando, engulho, grossas passadas rumo ao banheiro às três da manhã.
Uma partilha difícil, em todo caso, indecente.
A morte
em tudo, um peso sanatorial –, arca, baú, banco de igreja –,
arca, baú, banco de igreja.
Tudo participa do meu tamanho. As consistências, porém, oscilam.
A tubulação caduca.
Todos sabem que a fiação não aguenta até o ano que vêm.
Todos sabem, tudo
virá abaixo, não será por falta de aviso,
será a coisa mais distante de um poema de que já se teve notícia.
Contra o verde nauseante da pia, amanhece a branca noite dos pulmões.

Um Mau Amigo das Viagens


Bom, nada mais absurdo que meu vulto rondando essas rodoviárias do interior do estado, acorcundado sob a mochila grande demais, pernas penduradas de altos bancos de concreto –, balançando, balançando... Mas isto à primeira vista.

Uma agradável sensação – afetação, como quiserem – de continuidades decorre de estar num lugar e, logo em seguida, noutro. Talvez se trate de uma cidade abandonada às pressas, feita para se abandonar às pressas, de improviso, com firmeza de decisão tão absurda quanto a mochila que agora lhe pesa sobre as costas; talvez se trate de uma cidade que – como insiste em dizer aos amigos que lá foram cavar a vida –, nunca lhe fez favor nenhum, muito pelo contrário. 

Quem sabe? Partidas bem mais improváveis despencam sobre todos, todos os dias, basta olhar em torno. A você, mau amigo das viagens, a quem o simples ato de se deslocar de um canto a outro de um saguão envidraçado parece, no mais das vezes, inteiramente impossível, outro destino não caberia.

E como se não bastasse, ao longo das estradas percorridas de noite espaçam-se lugares ainda menos definitivos. Como é difícil acreditar que cidades inteiras se abrem por detrás das paradas, dos banheiros das paradas, dos sucessivos espelhos em que meu rosto vai se embaçando –, estes banheiros onde invariavelmente se pensa – isto é possível, não eu, eu me movendo é inteiramente possível.

Cidades Cada Vez Menores (Num Estacionamento)


Nem aqui estaremos a salvo de reencontros –, no estacionamento vazio de um supermercado, de um restaurante, às nove e meia da noite de um dia de semana –, à cata de respostas, cabeça baixa, lugares bem pouco fenícios – corro os olhos pelas linhas brancas ou amarelas que delimitam as vagas – enquanto –, você pesa, segundo a segundo, minha lentidão, ou até menos – a mesma postura desafiadora de sempre, mais orgulhoso, talvez, embora seu rosto tenha mudado completamente, já naquela época o seu rosto parecia mudar completamente de tempos em tempos, parece que os anos não passaram, que os anos não passam, que um torniquete –, parece que os anos passam, parece que os anos entretanto não se deixam formular, o que é infinitamente mais angustiante –, porque é de fato angustiante procurar por respostas simples e cabíveis e encontrar apenas e sempre certo tempo, informulável – agora –, pareço divisar um objeto qualquer sobre o asfalto: enfoco, não é um objeto qualquer: trata-se de um tubo de lubrificante anal espremido até o talo, a poucos metros de nós, ele consome a pergunta –, perceba, em qualquer outra ocasião isso me divertiria até não mais –, em qualquer outra ocasião eu certamente me sentiria tentado a dizer alguma coisa como Cristo Pai, como eu amo essa cidade – isto me falaria, este detalhe, isto me diria então: “certo, rapazes, mãos à obra!” –, mas agora estou atordoado, parece-me que apostamos alto, aponto para o tubo e em tom de pura delação repito está vendo, está vendo?, e assim me ergo não sem algum atrapalho da pergunta que você acaba de fazer, apontando para o tubo espremido de lubrificante anal, dedo inquisidor, SECO, sentencio, impossível continuar vivendo num lugar assim, impossível viver em meio a tantas distrações, entendo agora o meu percurso, ele me parece mais claro do que nunca, será por cidades cada vez menores, cada vez menores, cidades de esquecimento, cidades negativas, cidades onde toda e qualquer possibilidade de reencontro será vetada já de saída, e consequentemente, eventos cada vez mais insignificantes, relações de natureza sempre mais frágil, sempre mais questionável, enormidade de coisas entre as quais perder o seu rosto outra vez, na área de fumantes, completamente mudado, a expressão de susto quando o fantasma aparece diante do malfeitor para o acerto de contas, iluminado por luz policialesca, girando vermelha e azul, vermelha e azul a pergunta pende –, “mas você quer viver ou você quer morrer?”

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Bom dia, rapazes


I.

Após a longa semana de trabalho, qualquer coisa nos autoriza enfim a falar de amor –, rosa amiga dos homens por abrigar em si tantas outras valências, os dedos, de par com certas ideias sublimes, vinhetas de peixe, fritas –, isto –, que antes deslizava! A coisa se debate, debate-se acerca da coisa. Quando começa a chiar nas bordas da frigideira, seus fumos preenchendo a cozinha do botequim, está completo, estará incompleto? Quando falamos de amor, como agora, de boca aturdida, dedos malcheirosos, de viagem dos longos trabalhos da semana, longe onde ninguém nos possa tocar, e que nos toquem –, que nos alcancem e toquem –, para tanto estendem-se estes mesmos dedos para trás e para frente, esboço que relembra e pregusta o toque, afinal, ter um gesto, um gesto que seja, neste ar que pesa a peixe e frito. O mesmo gesto que não abole o tempo, que se ilude infantilmente tanto de aboli-lo quanto de atrair a atenção do garçom, um mesmo gesto fragorosamente inútil gemina sonho e lembrança – talvez uma volta larga, executa-se assim com a mão, o indicador em riste –, o resto do corpo em cortejo, humilhado pela nobreza do gesto. Ter um gesto, não uma prevenção, ter um gesto inútil e nobre que a tudo comporte em suas voltas – e isto “nos tempos de agora”. Os pés cruzam-se com os pés da mesa, as coxas enrijecem de súbito –, beleza e sordidez da digestão, passeio –, enfim, conhece-se o jogo – nunca é o nosso, o nome que fazemos pairar neste ar viciado, que assinamos sobre as travessas e copos vazios – mas esta volta, propriamente esta série de voltas que fazem os braços, pescoços, barbas, bocas que nos comoveram até então. Liquidados os longos trabalhos da semana, quaisquer que sejam eles, sentaremos num botequim e falaremos de amor perfeitamente cônscios da indesculpabilidade do ato –, como quem já fez o pudor, a confidência – como quem já viveu com alguma profundidade os rigores da amargura e agora e um bocado jovialmente espatifa monóculos contra o balcão. Espatifar os monóculos contra o balcão sem perguntar-se se isto é uma imagem duradoura. Ter um gesto bravo, inútil, nobre, inútil, belo – chamá-lo de amor.

II.


Mais tarde, pouco antes de dormir, revemos – de passagem – estes dedos que sobrevoavam oleosos os destroços da mesa. A imagem filtrará pela página que ora lemos, pelo livro com que nos fomos deitar, zelosamente apagaremos o último cigarro. Ao livro se juntarão então os jorros de nada das mãos sobre a mesa, os fumos desprendidos de determinados gestos – bocas, as barbas, imberbe insistência das barbas em falar de amor, tudo isso cederá lugar enfim ao sono – bloco de perfeita contenção. O sono é ele próprio inútil e nobre, empurra o livro da cama. O livro – previsivelmente, uma compilação de histórias de amor – cai sobre a mesa de cabeceira, entornando o copo de leite. Mas não acordamos, e se acordamos, já é manhã de sábado – a primeira coisa que vemos, afastados do rosto os dedos da noite anterior, é o copo virado, o livro encharcado de leite sobre a mesa de cabeceira. Onde está escrito, a que se refere uma cama vazia? Pondo de lado os cabelos, os dedos da noite anterior, podemos então ver a realidade das coisas – e isso, “parte-nos o coração”? As mãos, cada vez mais antigas, “partem-nos o coração”? As imagens, mais antigas com cada amor, a cega insistência das mãos sobre imagens cada vez mais antigas – “partem-nos ainda o coração”? Certos de que tudo recomeçará – infalivelmente o amor, o trabalho, os livros, nenhuma dimensão heroica –, temos uma breve hesitação antes de buscar o pano e limpar a mesa de cabeceira. Faz sol e não há vento. Colocamos o livro para secar sobre o parapeito.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Homem Sobrescrito


A começar por um homem. Este –, não ultrapassa uma lauda, o curso de alguns breves parágrafos –, é perfeitamente possível vê-lo pela primeira vez.
Que eu o veja pela primeira vez.
            Ele é conforme —, uma carruagem fantasma? Virá em meu auxílio?
Os senhores nunca têm nada de muito esfíngico a dizer quando venho pedir ajuda para o aluguel, tão logo dobro a esquina improvisam meu antigo quarto em oratório. Passam-se meses, anos me embotando, – tempo ao longo do qual não me lembro de coincidir com nada.
Insisto. É perfeitamente possível vê-lo, isto é, não revê-lo, não guardar deste homem a mais remota lembrança.
Os senhores e seus campos reencarnados; seus olhares de obsidiana compaixão.
Já nada me ocupa tão ferozmente quanto o esforço de não reproduzi-los – aos campos, aos olhares – quando me volto ao homem sobrescrito, a essa pequena dianteira de palavras. Afinal, como gostaria de dizer-lhe – tampouco eu,
tampouco eu enxergo alguma coisa em torno de si
            Com tantas léguas de permeio, é improvável que me faça ouvir.